Hoje eu só queria sair curtir minha solidão sozinho. Sai de carro pelas ruas já escuras, hoje tinha que ser assim, não havia outra escolha, eu tinha que sair sozinho. Por um tempo vaguei sem pensar em algum lugar pra ir, fui seguindo os caminhos rotineiros passando na frente de casas de conhecidos de ruas familiares e tudo ia me dando uma saudade calma, mas quando a solidão se mete até minha saudade calma tornou-se tristeza.
Nada melhor, quando se está sozinho, que tomar um café, mas tem que ser daqueles caros com creme disso, aroma daquilo, calda de não-sei-o-quê e chantili. Pois bem, lá estava eu, tomava meu café tranqüilo e só observava como aparecem muito mais casais e pessoas rodeadas de amigos quando se está curtindo uma solidão.
Meu café especial já havia secado, o pingado que pedi depois já terminava e estava me preparando para pedir outro quando tive vontade de acender um cigarro. Não fumo, mas a situação pedia um cigarro. Pedi junto com o próximo café um maço de cigarros e um isqueiro. A cena estava montada: eu, sentado de pernas cruzadas como que esperando alguém, tomava meu café e entre goles tragava o cigarro. Fiquei assim por quase meia hora.
O cigarro me ajudava a pensar, doce veneno... E aos poucos ia reformulando as milhares de situações que me levaram a sair sozinho. E pensar que o que sinto pode ser mesmo amor e não outro sentimento oportunista! Digam o que quiserem, eu não vou simplesmente ignorar esse sentimento que agora me alucina. Nunca em sã consciência eu faria o que ando fazendo por todos esses dias. Dias que começaram quando te conheci.
Pessoas entravam e saiam do café sem me notar, eu sentava quieto numa mesinha colocada bem aos fundos, especialmente para as pessoas que vêm aqui para curtir uma solidão. Esse não me notar foi-me até que bom, pude chorar sem despertar a atenção de ninguém, exceto do garçom que logo percebeu que eu deveria ficar sozinho. Bom rapaz esse garçom, deixei-lhe ao ir embora uma boa caixinha.
Você aparecia e desaparecia de minhas idéias como um vaga-lume aparece e desaparece na escuridão da noite. Então tornei outro café entre tragadas de cigarro e pus-me a pensar nos momentos que passamos juntos, as noites que dormimos abraçados, as risadas nossas que se confundiam no ar, os braços que soltos ora se encontravam num delicioso abraço, ora se confundiam tímidos e entrelaçavam os dedos. Deixei assim minha cabeça voar e relembrar até desejos que tive, que nunca aconteceram, mas que continuam desejos. E isso me custou mais um cigarro.
Tão bom era lembrar todos esses momentos que me sentia forte e guerreiro, sentia-me capaz de lutar momento a momento contra tudo para ter você entre meus braços com a certeza de que és minha. E passava então, num outro cigarro já, a bolar estratagemas magníficos para te impressionar, pra te chamar a atenção. Tudo parecia possível, parecia que era assim fácil, quase havia ali uma fórmula, um guia prático de como se amar.
Mas esse outro cigarro trouxe-me lembranças malvadas. Lembrou-me a maioria dos meus amigos dizendo que eu era louco, estúpido, que o que eu buscava era sofrimento. Lembrou-me ainda esse cigarro os conselhos que me davam, todos inúteis, inúteis porque diziam para que eu desistisse. Conselhos inúteis são esses que não nos ajudam na busca, mas nos querem ver longe dela.
Eram tantos amigos que me diziam para parar que não conseguia mais ouvir os poucos (se não me engano dois) amigos que ainda defendiam minha luta. Pensar que a maioria dos conselhos que recebi eram contra o que eu mais queria me deixava triste porque parecia que eu deveria aceitar mesmo. Parecia que não tinha mais saída mesmo e que a única solução para o meu caso de amor seria o esquecimento.
O único foco de resistência que ainda existia estava em mim, na minha vontade. Um dos conselhos era, inclusive, fundamentado em conceitos astronômicos e dos horóscopos e dizia que segundo os astros eu nunca poderia me dar bem com você. Minha vontade imediata foi a de rasgar todo o mapa astral que está fixo na esfera celeste e montar outro, mas dessa vez eu iria montar um onde tudo daria certo para nós dois.
Mas o que me levou a sair sozinho hoje foi justamente um desses conselhos. Uma das pessoas que antes me apoiava e até comemorava comigo pequenos avanços hoje mudou de lado. Dizia que nunca tinha me visto correr tanto atrás de alguém e desejar tanto estar com alguém como me via agora, ele dizia que isso poderia ser ruim, poderia me fazer sofrer. Sofrer! Não tenho medo de sofrimento algum, a vida é feita deles não é mesmo?
Mas ele era amigo, argumentou, insistiu, conversamos, me abraçou e se despediu. Ele era amigo, um dos caras que eu mais levava em consideração quando precisava de algum conselho ou ajuda. Justo ele me disse pra esquecer, pra desistir. Estou determinado a não desistir assim, não penso em desistir da caminhada só porque o caminho parece difícil, não penso... Mas ele argumentou muito bem, quer mesmo que eu não sofra, mas eu sofro mais e por mais tempo se ficar pensando na atitude que não tomei, no ponto que deixei de tentar marcar.
Hoje eu quis sair assim, sozinho, pra poder pensar, eu queria sentir como estou, conversar comigo mesmo sobre o que sinto e sobre outras coisas bobas. Agora, no cantinho do café, dois terços do maço de cigarro viraram cinza e eu chorava, chorava discreto e de cabeça baixa para ninguém perceber. Como fui burro, quase deixei-me convencer de que teria mesmo que desistir. Um último café, por favor. Acendo outro cigarro e levanto a cabeça. Por pior que seja essa decisão já foi tomada faz muito tempo. E o único argumento que posso usar é o amor que sinto, já que até minha intuição se rebelou e só disse que voltaria a trabalhar quando tudo isso acabasse.
Chegou meu último café. E se não fosse por um casal numa das mesas do canto eu seria o único cliente do café agora. Ponho-me outra vez a chorar, mas dessa vez choro mais por comodismo do que por qualquer outra coisa. É que sei das dores que vou passar, sei do sofrimento que vou sentir, de toda a humilhação e da incerteza da conquista. Se fosse possível que esse cálice passasse por mim sem que eu o bebesse! Mas sou tão tolo como todos os outros, não escolhi você. E se volto outra e outra vez para te ver é porque ainda não posso ficar. E se vou embora não se assuste, não vou por gosto, é o destino quem quis.
02.02.2008
Um comentário:
Que chato imaginar que eu fui uma dessas pessoas que te aconselharam indevidamente. Mas cê sabe que hoje eu sonhei com você e com a menina? E vocês estavam bem! eee! Quer um conselho: não peça conselhos. Você vai sempre ouvir o contrário do que quer ouvir. Nós só pedimos conselhos quando sabemos que estamos certos, mas que há algo de errado nisso. Daí a gente quer que alguém diga aquilo que queríamos ouvir, mas você vai ouvir justamente o que não queria, mas que era o esperado. Confuso? Senso-comum, mon chèr.
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