31.1.10

Já é velha conhecida de todos a frase que diz "tem músicas que falam por mim", mas acredito que é na poesia que está todo o sentimento. Uma música com boa poesia é de arrebentar. Enquanto as músicas falam por nós, as poesias sentem por nós. Só hoje, lendo Olavo Bilac, fiquei com dó de sua poesia. As poesias sentem por nós, mas diferente de nós, elas sentem sempre, desde o momento no qual foi formada sobre o papel até o seguinte momento no qual não restará registro escrito, físico ou virtual, nem nas lembranças das pessoas, de sua existência. Fiquei com pena da poesia que sente desde sua criação o que sinto nesses dias que não tardam a terminar. Poesia forte, que eu tenho pra mim que não conseguiria aguentar nem pequena fração do que a poesia aguenta e pelo tempo que aguenta! Recomendo o Adagio -Allegro vivace da sinfonia nº 4 em Si Bemol Maior de Beethoven para acompanhar a leitura (em voz alta de preferência).
A dedicatória fica por conta de quem a lê. Por que se um dia achei que precisasse de dedicatória, hoje acho que não preciso. Achei.

Chove. Que mágoa lá fora!
Que mágoa! Embruscam-se os ares
Sobre este rio que chora
Velhos e eternos pesares.

E sinto o que a terra sente
e a tristeza que diviso,
Eu, de teus olhos ausente,
Ausente do teu sorriso...

As asas loucas abrindo,
Meus versos, num longo anseio,
Morrerão, sem que, sorrindo,
Possa acolhê-los teu seio!

Ah! quem mandou que fizesses
Minh'alma da tua escrava,
E ouvisses as minhas preces,
Chorando como eu chorava?

Por que é que um dia me ouviste,
Tão pálida e alvoroçada,
E, como quem ama, triste,
Como quem ama, calada?

Tu tens um nome celeste...
Quem é do céu é sensível!
Por que é que não me disseste
Toda a verdade terrível?

Por que, fugindo impiedosa,
Desertas o nosso ninho?
- Era tão bela esta rosa! ...
Já me tardava este espinho!

Fora melhor, porventura,
ficar no antigo degredo
Que conhecer a ventura
Para perdê-la tão cedo

Por que me ouviste, enxugando
O pranto das minhas faces?
Viste que eu vinha chorando...
Antes assim me deixasses!

Antes! Menor que seria
O sofrimento, querida!
Antes! a mão que alivia
A dor, e cura a ferida,

Não deve depois, tranquila,
vendo sufocada a mágoa,
Encher de sangue a pupila
Que já vira cheia de água...

Mas junto de mim que te falta?
Que glória maior te chama?
Não sei de glória mais alta
Do que a glória de quem ama!

Talvez te chame a riqueza...
Despreza-a, beija-me e fica!
Verás que assim, com certeza,
Não há quem seja mais rica!

Como é que quebras os laços
Com que prendi o universo,
Entre os nossos quatro braços,
Na jaula azul do meu verso?

Como hei de eu, de hoje em diante,
Viver depois que partires?
Como queres tu que eu cante
No dia que não me ouvires?

Tem pena de mim, tem pena
De alma tão fraca! Como há de
Minh'alma, que é tão pequena,
Poder com tanta saudade?!

(Olavo Bilac, "Velha Página")

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