28.10.08

Tem uma cobra no meu quarto! Uma víbora, um réptil escamoso sem patas ronda os meandros daquele que sempre tomei como cantinho seguro, reduto secreto do mundo selvagem que me rodeava. Agora vejo minha toca tomada, invadida por uma cobra. E o medo me assola, entre pontos e vírgulas olho para os lados com a esperança de encontrá-la, antes que ela me encontre (ou que me alcance).

            Certo está que fui eu mesmo quem a colocou para dentro, mas a princípio ela estava em uma garrafa pet, dessas de guaraná. Tomado por dó de deixá-la nesse ambiente em nada parecido com o seu habitat, do qual meu aluno a retirou, trasladei a víbora para uma cumbuca de vidro e para engrandecer minha alma com a bondade que queria demonstrar coloquei quatro pedrinhas dentro da cumbuca de vidro. Ali estava ela, e, a julgar pelo seu comportamento, parecia feliz.

            Pus-me a olhá-la por alguns momentos, mas logo me distraí e passei a dedicar-me às responsabilidades que me saltam á memória. E quando parei o estudo que estava fazendo de alguns textos para tomar água lembrei-me que existia mais alguém no meu quarto além de mim. Aproximei a grande cabeça que tenho do pequeno vidrinho na qual ela estava e não a encontrei. Mas é lógico que estava atrás das pedras que eu havia colocado. Não, também não estava. Fiquei com medo, será que ela fugiu? Tirei as pedras do vidrinho e além da água (era uma cobra d’água), não havia mais nada, nem um rastro dela.

            Traidora, víbora que é, usufruiu das benevolências que minha alma queria gastar e agora foge, deixa meu corpo inseguro e minha mente criativa não para de pensar que logo ela aparecerá presa no emaranhado de meus cabelos. O jeito era encontrá-la, não conseguiria (e de fato ainda não consegui) dormir bem enquanto um predador reptiliano sem patas com língua bífida estivesse à solta em meu quarto.

            Ela ainda não apareceu e começo a duvidar que esteja em meu quarto. Será que minha família corre risco!? Não, ela não está no corredor. Onde estaria? Pensa como uma cobra, pensa como uma cobra pensa... Não dá, não consigo.

            Ele deve ter caído no chão e ficado por ali mesmo. Quando abaixei-me para procurá-la um novo medo surgiu. Ela poderia estar acima de mim, quem me garante que ela caiu? E agora que não a vejo aqui em baixo posso muito bem estar sofrendo o risco de um ataque aéreo. Mas não, ela também não estava sobre o móvel. Onde estaria então?

            Juro que estou realmente preocupado com a situação. E quanto mais o tempo passa, mais me pego caindo em artimanhas de minha imaginação. Tudo o que leva consigo uma pequena ondulação me faz acreditar que ali está a minha inquilina.

            Não a encontro e não faço mais idéia de onde procurar. Estou encostado em um canto do meu quarto que não tem móveis, o computador a minha frente e ao seu lado tenho um desodorante e um isqueiro, também tenho duas pinças e com isso fecho minha defesa. Me sinto selvagem, já evoquei os espíritos das florestas de todas as eras para me auxiliarem nessa luta.

            Estaria na frente, vencedor, quase, se não fosse pelo fator surpresa que a cobra têm, conferindo-lhe total controle da situação e total terror sobre mim. Se pudesse ao menos vê-la, teria um conforto. Desconfio que minha cabeça já aumentou em cem por cento o tamanho original da espécime e isso me assusta um pouco mais.

            O que cobras comem? O que essa cobra come? Já ouvi muitas histórias de pítons que conseguem deslocar a mandíbula abrindo a boca em cento e oitenta graus para engolir um ovo de avestruz que é muitas vezes mais largo que seu corpo. Mas nunca ouvi de cobrinhas como essa. Sei que não comem vegetais, e seria no mínimo cômico imaginar uma cobra pastando.

            Quantos dias será que essa cobra irá sobreviver no meu quarto? Não garanto que ela poderá encontrar alimento para sobreviver, mas nunca se sabe. E ela continua misteriosamente escondida. Nego o telencéfalo altamente desenvolvido que tenho e vivo como animal, ponho-me a cheirar e fuçar nos cantos procurando a tal cobrinha. Procuro em vão. Ela deve estar rindo de mim. Quer meu quarto.

            Droga! Uma cobra! Uma mísera viborazinha que tem no máximo quinze centímetros me bota mais medo que a cidade de São Paulo inteira! Maldita. O sono começa a reaparecer e a me deixar menos atento para qualquer ataque surpresa. Acho que perdi. Um dia há de aparecer morta rogando ajuda! Tudo bem, ou ela aparecerá morta ou rogando ajuda, mas um dia ela aparecerá! Por hoje, com a luta perdida e a guerra começando, vou dormir na sala.

Um comentário:

Anônimo disse...

Não acredito...
hehehehehehhe
muito engraçado isso!
igualzinho ao episódio do Chaves em que eles perdem um escorpião...
espero que já tenha achado!
beijo