18.1.08

(Texto escrito há algum tempo. Estranho ver com olhos mais distantes o que passamos. Reviver o sentimento sem sofrer foi quase prazeroso)




Não quero que isso se repita amanhã. Não quero outra vez essa mesma rotina, esse mesmo cotidiano, esse mesmo dia-a-dia. Por ora ficaria feliz em não ter outra noite triste, na solidão do mesmo escuro de ontem que outra vez, eu sei, será banal. Já me acostumei com os vultos que antes me davam calafrios, até confesso que alguns me fazem companhia na quietude do quarto, atravessada minuto sim, minuto não pelos motores rolando na rua.
Não quero que isso se repita amanhã. Não quero o mesmo sermão na missa aos domingos, não quero uma fé vã. Não quero a solidão do fim da tarde o dia inteiro, não quero ocupar a cabeça para não pensar. No entanto ficaria feliz em ter outro alguém que não eu para me abraçar, só para não me sentir só. Talvez algum amigo me faça bem, mas se sempre pareço sorrir, quem virá me consolar?
Não quero que isso se repita amanhã, não quero viver isso outra vez. Já chega dessa mesma opinião, dessa raiva intrínseca ao que sou quando repito o que já fui. Estou começando a ser outra vez o que fui ontem. O solitário desejo de ter alguém com quem gastar esse tempo volta e ponho-me a pensar em alguém, a colocar condições, a complicar mais. Quero alguém pra conversar, que me faça dizer (ou pensar) algo que eu já não tenha pensado ontem, ou anteontem, ou antes, até. Todos os dias passam, mas a sensação que tenho é de que ele nunca se vai, sempre torna e se repete.
Não quero que isso se repita amanhã, nem depois, nem depois. Não quero ter que me explicar antes de dormir outra vez, nem de me convencer a levantar de manhã, ou de continuar sem desistir. Não quero mais ficar bravo com a ofensa refeita, disfarçada de novidade. Não quero mais ser minha cadeia, cansei de não ser felicidade.

Que essa folha seja meu ombro amigo. É que a solidão me pegou desprevenido, flertando com o dia, olhando distraído por aí... Desculpe se eu chorar, só quero um ombro amigo, um canto seguro, um carinho. Quero acordar logo, já nem é noite e meus olhos puseram-se a cantar na única língua que conhecem. Fecho os olhos, mas elas continuam a sair. Tenho que dormir... Só não quero que isso se repita amanhã.

Um comentário:

Anônimo disse...

Já pensou em respirar? Isso faz um bem... Às vezes não é de companhia que precisa. Só precisa aprender a solidão e perceber que o silêncio é a mais vibrante das músicas.
E reclame muito. Vão te chamar de chato, mas você vai se sentir muito bem, hehe.