16.12.07

Hoje, reencontrei Camilla.
Estava de costas, apoiada no balcão, o chapéu de pano fazia-a parecer tão sublime que tive medo de me aproximar e fiquei assim, olhando-a de longe, mas não por não querer estar lá, ao balcão junto dela, e sim por saber que minha presença lá estragaria toda a cena que, agora, sentado eu ficava a observar.
E ela conversava com alguém, ria, impregnava no ar o seu bom humor e a candura de sua alma. Eu respirava com calma, concentrava-me, não podia deixar todo esse ambiente que ela criava ser poluído com minha presença. Fiquei sentado e quieto. Ela tomava café, duplo, extra-forte, com aroma de avelã e adoçado com açúcar mascavo, é uma admiradora de café, toma-o não só pela força de seu caráter, mas também pelo efeito que um expresso duplo pode causar.
Estava de costas, talvez por isso não tenha me notado. E ela era linda, mas só eu e talvez a amiga com quem ela conversava sabíamos disso. Ela era parte do nosso prazer particular, do nosso aproveitar o fim de tarde, que sem ela não estaria completo assim como o mar emudece quando não há ar para lhe completar.
Quando levantei-me para ir embora, e só ia embora porque anoitecia, notei que seu rosto, discretamente, moveu-se revelando para mim seus olhos e, consequentemente, revelando-me para seus olhos. Outra vez esse olhar. Esqueci-me de tudo e parado só conseguia ver a íris imóvel que me fitava. E nela, como se fosse reflexo de sua alma ou delírio de seu desejo mais secreto, vi um arco-íris de lua formar-se nas lágrimas que, uma vez já formadas, negavam-se a cair. E embora houvessem lágrimas ela ainda estava a rir.

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