
Si bemol. E de longe quem quisesse poderia ouvir toda a cadência de notas que viria a seguir, e nota após nota melodia e harmonia se encontravam em um só lugar, e de repente um staccato. E outro e outro e todos dando sentido ao complicado movimento que da partitura tocava a pianista. Uma pausa. E retorna a pianista a dedilhar sua ternura sobre o piano que pede e geme e chora e, enquanto ela toca, canta.
Piano entra agora só c’o baixo num pular de dedos convictos e certeiros entre uma tecla e outra (crescendo) e as notas ainda desligadas criam no ambiente um café de Paris. Um acento forte num acorde! E que toda vizinhança acorde! E a melodia flui com as notas ligadas, na partitura tudo tem lógica, mas é nas mãos da pianista que essa razão encontra sentimento. Retardando, lento, piano, emoção.
Pára uma colcheia, respira, volta. Segundo movimento, um alegro apaixonante que na partitura é só um desenho, mas muito mais para dez dedos sonantes. E toca e pula os dedos sobre as notas, e inventa melodia num alegro recém criado. Tanto staccato e ligadura. Tanto falam os dedos quando a boca cala! Toca tudo ao piano, toca fundo, toca a alma de quem ouve. Forte ao piano um harmônico, grau-conjunto e vai devagarzinho sumindo, sumindo...
Volta alegre e rápido sem saber muito bem onde isso vai parar. E vai, vai, vai sem parar, sem cansar. Toca seu sonho numa improvisação, sorri, seu sonho foi realizado. E o alegro ameaça terminar o movimento, notas marcadas, bem marcadas, acordes anunciando o fim. Numa última tentativa ela volta, dedilha mais um pouco, mas não dá, a partitura implora que se acabe com a música. Lá-sol, mi-ré, si bemol...
Mas partitura não prende a música e ela volta e cambaleia, acerta acorde, acerta nota, acerta a gente. Ela diz nos dedos as doces surpresas que teve na vida, diz com um grau de doze notas acendentes seus sonhos para o futuro e volta num expressivo andante chorando decepções. E o piano canta a vida da pianista do jeito que ela quer que a vida seja, e ao final a pianista assume que não é fácil e seus dedos revelam que mesmo com as dores e muitas alegrias ela aceitou ser o que é. Parabéns pianistas.
Um comentário:
Esse texto é muito bonitinho. Aliás, acho que é um dos que mais gosto. Eu esqueci de comentá-lo aqui. Mas, e isso eu já havia dito, o final quebra um pouco. E o "parabéns pianistas" torna o texto quase semelhante àquelas mensagens de dia das mães - sem ofensas. Você não acha?
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