30.10.06

"Rosa Mística"

Cinqüenta e nove pedrinhas, uma medalha e uma cruz, todas alinhadas sobre uma correntinha leve e fininha. Tenho-as sobre a mão, observo pensando se devo ou não começar. Corro o dedo sobre todo o seu comprimento, suspendo-o no ar e observo: é tão simples... Deixo-o roçar minha mão novamente, sinto as contas passando ritmicamente junto à pele dos dedos, não me tomaria muito tempo, de verdade, mas será que devo?
Lembro-me vagamente de minha mãe tentando me ensinar, mas lembro-me mais dos planos que eu fazia para me livrar daquilo. Hoje queria que ela estivesse aqui, pelo menos saberia o que fazer, tinha tanta agilidade com os dedos, as contas pareciam obedecer ao ritmo que ela dava à reza. Hoje as contas ficaram comigo e a reza se foi com ela.
Essa triste lembrança produziu em mim um par de gotas que com muito esforço saíram dos olhos que há muito tempo estavam secos. Deixava o terço sobre a palma da mão, não queria segura-lo, mal ousava agora tocar a única lembrança que havia ficado de minha mãe em mim. Mas era minha mãe, por isso apertei forte as contas na palma da mão e enchi o corpo de saudade, um arrepio leve.
Tomei novamente o terço com os dedos, que mal pode haver em tentar? Mas as contas e a cruz e a medalha pesavam tanto, eram tão bem trabalhadas, infladas com tanto significado, tão grandioso. Corri o dedo por todo seu segmento, não encontrei nada, são só contas, pedrinhas. Todo seu significado está em mim, essa foi a herança que minha mãe tentou me dar antes de morrer, tentou em vão porque agora não sei o que devo fazer com contas, ou pedrinhas, e a cruz e a medalha na mão.
E correr as contas pelos dedos cochichando alguma coisa antes de dormir fazia tão bem para ela, por que tê-los em minhas mãos não me faz tão bem? Agora seguro e olho só a cruz, há um corpo nela. E todas as contas penduradas estão presas à cruz, deixo-as caírem suavemente sobre minha mão, não me fazem sentido, talvez se o fizessem me sentiria melhor em segura-las. São só pedrinhas para mim assim como sou só gente para elas.
Concentrado nele e em todas as suas peculiaridades conheço todos os seus defeitos, falhas de criação, mas mesmo assim não vejo salvação saindo dele e caindo em mim. Logo me desespero e jogo-o num canto, mas ainda não, quero-o para decifrá-lo, nele há de estar a cura para minha maldição. Estou fadado a continuar assim, buscando, sem direção, qualquer caminho que me leve pra fora daqui. Estou preso em mim, nas minhas manias e vícios, Deus pode me tirar daqui?
As contas saltam suavemente umas sobre as outras, todas sobre a mão trêmula, e a cruz cai, fica presa às contas, balançando. Poderia salva-la, mas com minha outra mão seguro o choro. Primeiro devagar e depois mais rápido o terço vai escorregando da mão, lembrei-me de fechá-la, mas já era tarde e as cinqüenta e nove pedrinhas, a medalha e a cruz caíram da mão, junto com a corrente fininha, antes de conseguir segura-la. Perdi o terço no chão escuro desse quarto. Perdi minha fé, minha mãe e a vontade de chorar, sou agora parte desse escuro preso no quarto. Amém.

(Fausto)
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Foto por Alice Bandeira

Um comentário:

Anônimo disse...

:(

ai meu coraçãozinho!