24.10.06

O pardal que eu amo



Essa noite eu tive um sonho e acordei com medo, mas não chorei. Sonhei que um pardal se apaixonava pelo fio negro que passava do outro lado da rua, sobre os postes. Era um amor nunca visto antes, e por horas o pardal ficava olhando o fio imóvel. Ele não voava para lá porque vivia dentro de uma gaiola. Sonhava todas as noites com o fio vindo roçar as grades de sua gaiola, abrindo a portinhola e o chamando para dar uma volta. O pardal dormia sorrindo.
Mas eis que veio o dia que o pardal pedia para nunca chegar. Já havia ouvido muitas histórias sobre, mas nunca dava importância a elas, sempre antes de dormir pedia para que nunca acontecesse o que nesse dia aconteceu. E outra vez o pardal se põe à beirinha da gaiola só namorando o fio que do outro lado sorria sempre para ele. Enquanto o pardal suspirava olhou o fio, fechou os olhos e agradeceu ao Deus dos Pardais pela graça que ele tinha em ter o fio ali do outro lado da rua, mas quando abriu os olhos para observar seu amado viu que ele não estava só.
Em choque e sem chorar o pardal ficou como que imóvel, congelado. Havia um pombo sobre o fio. E então o pardal desatou a chorar. Chorou dores que nenhum outro pardal havia chorado, afinal ele era o único que havia se apaixonado pelo fio do outro lado daquela rua. E por mais que ele ainda visse o fio sorrindo para ele se contorcia de ciúmes quando aquele pombo começava a balançar. O fio era tão comprido, tão preto que o pardal não entendia como ele deixava que um pombo cor de poluição e sujo como o sujo pombo podia pousar sobre seu delicado e grosso comprimento. Ele, pardal, era limpo, delicado, até inteligente, mas o fio estava ali, esticado como sempre, como sempre fazia para o pardal, mas agora estava ali esticado como sempre com um pombo!

E o pardal chorou lágrimas de homens. Sentiu as dores do ciúme e pensou até em suicídio. Mas a gaiola era demasiada gaiola para ele se matar. Ficou sem comer. O pombo já havia ido embora, mas o pardal já estava corrompido e passava horas remoendo pensamentos. Achava que o fio só recebia seu pombo durante a noite. Canalha! Era o que o pardal gritava de sua gaiola. E o menino na rua dizia: Olha como canta alegre o pardal!
Algum tempo passou e o pardal já estava quase desculpando o fio pela desfeita quando viu outra vez o mesmo, ou outro talvez, pombo pousar no fio. O pardal esbravejou com toda a força. Olha como canta alegre o pardal! E o pardal ganhava fama cantando sua desgraça. E o pombo abusava, caminha sobre todo o comprimento do fio só para provocar o pardal. O pombo voou. O pardal já nem olhava mais pro fio, seguiu com o olhar o pombo que pousou na rua para aproveitar algum resto de migalha que estava por ali. O pardal só olhava. O pombo banqueteava satisfeito com a vida que levava. E então, tão de repente como o dia se faz claro depois da noite, veio um carro numa velocidade que não deu chances para o pombo escapar. Agora era menos um pombo, estava esticado no chão como o próprio chão está esticado no mundo. E o pardal riu discretamente. Olhou para o fio e viu que ele chorava. Soltou um canto alegre, doce e gentil. O menino na rua apontou e disse: Olha como canta mal o pardal!
E agora o pardal via amores em outro lugar. Passava o dia na sua gaiola e se aprontava todo quando ouvia um motor passando por aí. O pardal amava o carro, mas só o amava porque ele o livrou dos ciúmes. E os carros passavam e nem notavam o pardal que cantava com toda a força na varanda da casa. O fio chorava um amor perdido e um amante atropelado.
Eu acordei com medo de ser o pardal. Com medo de ser o fio, o carro. Aceitaria no máximo ser como o pombo foi, ou pelo menos morrer como ele morreu: feliz e satisfeito com o banquete que desfrutava sozinho. Eu tive esse sonho e acordei com medo, mas não chorei. Levantei, chacoalhei o corpo e caminhei até a varanda, tomei alguns goles de água da minha tigela e fiquei ali, deitado, observando o pardal. Eu amo o pardal que ama o carro que matou o pombo que amava o fio que traia o pardal com o pombo que causava tantos ciúmes ao pardal que eu amo
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Foto por Jackson Pádua

Um comentário:

Unknown disse...

esse eu simplesmente adoro!

:)