
Chegou em casa e vestiu-se em trapos. E tantos trapos caíam-lhe tão bem que sorriu. O espelhou sorriu de volta. E como tudo em sua vida estava meio que na vida certa ela apanhou um pouco de começo e começou a pintar. O pincel dançava em par com a mão uma música que tocava ao fundo. O fundo lilás. E todas as cores discutiam tentando acertar quem ali seria usada. Se elas acertavam? Não importa. Elas pintavam e só. E ali sentada junto ao chão pintava sua vida conforme ela passava.
E passou tempo. E passou vida. E a parede era sua auto-fotografia. Pintava dia, hora, sonho, pintava mundo, música e outros. E conforme passava tempo, passava sentimento. E como todo sonho exige um acordar ela viu sua vida mudar, mas pouco ligou. Ela tinha uma parede inteira para pintar! Ela ali sentia que não precisava de ninguém, tão pouco de alguém, todo mundo e muito menos qualquer um. E a parede sorriu de volta.
E ali se viam cores, traços, pontos. Tudo em harmonia. Risco, curva, tinta, ponto, bola e flor. Nunca se viu algo tão belo, desigual, e os desenhos de linha tinham agora musicalidade e rima. E ali se vai enchendo uma parede de vida, um auto-retardo fotográfico. Risco, bola curva ponto, desenho chapado na parede. Infantil, ingênuo não! E tinta após tinta, sobre tinta, com tinta, além tinta e tinta do além. O pincel e a mão, a tinta no pote e a parede no chão. Da mão a tinta, da casa a parede. E aos poucos foi-se tendo forma o caos, e o caos agora tinha direito a métrica e a rima. E viu-se que era bom, e ali se fez Deus.
Se na parede tudo andava bem, na vida as coisas não pintavam de acordo com a música de fundo e nem sobre o fundo lilás. Mas pouco importava, afinal, uma parede inteira ainda restava! E com tantos pontos longos fez-se uma linha sinuosa. E a parede refletia tudo. A vida refletia a parede e a parede não sabia ser refletida pela vida.
Chegou em casa e vestiu-se em trapos. Olhou no espelho procurando algum motivo para ser outro que não vestidentrapo. O espelholhou e refletiu qualquer coisa que passasse longe de ser belo. Refletiu trapos também, mas eram trapos, só trapos. Trapos. Retalhos de
vida desiludida. Tudo era fotografado pela parede.O pincel já não dançava com a mão. As tintas torciam para não serem escolhidas. E a parede pedia para não ser pintada. Mas havia uma parede inteira! Então pinta, pinta, pinta, pinta, pinta, pinta, pinta, pinta... Cansa, deixa que a família ajuda. Cada um faz um desenho, oba! A parede está se enchendo. A família nem é tanta. Chama os amigos!
Chama! Chama seus amigos... E a parede se encheu. Estava cheia de ser só pintada. Quem ali sentia alguma coisa tem seu desenho destacado. E metade da parede estava morta. Amigos, amigos são mais que isso. Desprezo.
E para qualquer um a parede era ela. E só ali se via algo mais que uma parede em toda aquela menina.
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"Pour Alise", Fausto Gomes
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Fotos por Alice Bandeira
4 comentários:
só vim aqui clicar no banner... depois eu leio... hahaha
sorry, mas vc entende essa vida de vestibulando, né
beijos
ps: to puta da vida com essas eleições... viu só quem ganhou em sp pra deputado? maluf e clodovil... ai ai ai
Ae cara Vc tá de parabéns !!! Mto bom !!!
Muito interessante...Mas cadê meu átomo???A Alice nem colocou o meu invento tão lindo...
se teve uma coisa que vc soube fazer foi esse texto.eu leio sempre, pq ele me encantou.
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